A CRUZ

            

ntes de Jesus Cristo, a cruz era o instrumento de punição ao crime e ao banditismo, constituindo-se o supremo castigo. Ladrões de estradas, homicidas cruéis, escravos de guerra, vítimas da intriga política, malfeitores de toda ordem experimentaram-lhe o suplício, resgatando com a vida os débitos da insânia.

          O crucificado representava um fora da lei punido pela Justiça, credor de desconsideração e desprezo social.

          Com Jesus, o réu sem crime, o instrumento desonroso adornou-se de esperança e alento para toda Humanidade.

          Não foi a cruz que honrou o Filho do Homem.  Foi o Cristo-Homem a nobilitar a cruz.

          A espada que deveria simbolizar a Justiça, nem sempre tem sido reta e nobre.

          A madeira extraída do solo, rasgada em braços abertos, representou a ascensão difícil apontando o Céu.

          Quantos lhe sofriam o jugo, desciam com a morte ao sepulcro de cinza, lama e pó.

          Ele, entretanto, arrebentou as cadeias da morte e ressurgiu na vida triunfante alçando-se à Imortalidade.

          Cruz e Cristo.

          Antes fugia-se da Cruz, por significar maldição.

          Depois busca-se a Cruz, por expressar glorificação.

          A Cruz de Cristo, erguida à majestade da Sua vítima, é a esperança que liberta da morte e abre as portas da Vida Eterna.

          Há, todavia, duas cruzes: a do Mundo e a do Calvário.

          A cruz do mundo esmaga, embora se carregue sem a sentir. A Cruz do Calvário salva, apesar de conduzir cansaço e dor.

          A primeira se apresenta leve, de início, e atira ao solo depois... A segunda, inicialmente pesada, torna-se, por fim, um leve fardo. Uma é cheia de atração, convida, recebe e mata... Outra é despida de artifício, sempre nua, mas oferece a vida.

          A cruz do mundo engana com madeiras perfumadas de seiva deliciosa, porquanto intoxica e aprisiona, envenenando depois.

          A Cruz do Calvário é áspera, exala os odores desagradáveis das enfermidades e aflições, mas, subitamente, toda se adorna de flores e  exala o aroma do júbilo e da felicidade.

          Todos carregam a cruz do mundo sem que se apercebam.

          Quantos, entretanto, carregam a Cruz do Calvário, conhecem-lhe o valor.

          Uma é feita de mentiras e revoltas. Outra é construída de santos anseios e resignação.

          Uma passa e deixa amargura. Outra fica e defende de aflição.

          Quando as agonias profundas nos acometerem a alma, paremos e examinemos a Cruz que segue conosco, porquanto, se uma é porta de liberdade, apesar de estreita - a do Calvário -, a outra é passagem para a prisão, embora larga - a do mundo.

          - “Tome a sua Cruz e siga-me” - disse o Mestre.

          Conduzamos a Cruz -, ei-lo aguardando.

  Djalma Montenegro de Farias

Psicografia de Divaldo Pereira Franco - Extraída do Livro "Sementeira da Fraternidade"