ALLAN KARDEC II

 

  família espírita de todo o mundo comemora, no dia 3 de outubro, o nascimento do grande filósofo e reformador Hippolitte Leon Denizard Rivail, que o Espiritismo celebrizou com o pseudônimo de Allan Kardec.

 Nasceu, o Mestre, em Lyon, a 3 de outubro de 1804, de uma família magistrados e juristas.

Matriculado na Escola de Pestalozzi, em Yverdun, Suíça, tornou-se, desde logo, um dos mais distintos discípulos daquele emérito pedagogo, cujos métodos de ensino exerceram enorme influência nos estudos na Alemanha, na França e em vários outros países.

Médico e bacharel, muito inclinado para os problemas da educação, salientou-se pela publicação de várias obras importantes, todas premiadas pelo governo da França e de outros países.

Conhecendo perfeitamente as ciências naturais, fundou, em sua casa, cursos gratuitos de física, química, anatomia comparada, astronomia, etc., onde lecionava à mocidade, revelando as suas qualidades de educador e de cientista.

Assim, antes de o Espiritismo vulgarizar o seu nome, tinha o Mestre já sabido ilustrar-se por trabalhos de considerável valor.

“Revue Spirite”, esboçando ligeiros traços biográficos de Allan Kardec, escreve: “Tão incisivo quanto conciso, tão conciso quanto profundo, ele tinha o segredo de se fazer claro e ameno em linguagem simples e elevada, um meio termo entre o estilo familiar e as obscuridades da metafísica. Ele só, foi tudo. E nós que nos podemos chamar legião, só nos manteremos à altura da situação, o que esperamos, apesar da nossa fraqueza e inexperiência, se nos firmarmos nos princípios incontestáveis por ele estabelecidos, para execução dos projetos que visava para o futuro”.

Graças ao seu método de exposição, à clareza e à simplicidade de linguagem, ele conseguiu vencer a barreira que se antepõe a todas as doutrinas novas, conquistando adeptos em todo o mundo, com uma facilidade como nenhuma filosofia conseguira antes. Ele era, segundo a expressão feliz de Camille Flammarion, “o bom senso encarnado”.

Tão profundas eram as suas sentenças que um escritor, seu contemporâneo, dissera que Kardec só poderia ser entendido um século depois da publicação das suas obras.

O próprio professor Charles Richet, criador de Metapsíquica, que estudou durante 50 anos os fenômenos espíritas, afirmou: “Allan Kardec é certamente o homem que, no período de 1847 a 1871, exerceu mais decisiva influência, traçando o mais profundo sulco na ciência metapsíquica”.

Todos quanto têm estudado as obras fundamentais e conhecem o trabalho do Mestre infatigável, sabem perfeitamente a natureza da extraordinária missão que a Providência lhe confiou e que com tanta habilidade e tato, critério e talento soube desempenhar.

Devendo apresentar, à humanidade, uma filosofia profundamente espiritualista, que entraria fatalmente em conflito com os princípios oficiais do materialismo dominante; filosofia que também se apresentava como religião e, nesse caráter, feria de frente as velhas concepções teológicas e os dogmas; fundando a sua doutrina na moral pura do Cristianismo primitivo, Allan Kardec tinha necessidade de adotar processos inteiramente novos, capazes de construir no coração humano uma crença profunda e séria, forte e inabalável, que nada tinha de comum com a fé cega das religiões.

Em substituição à esta fé, que aniquila a liberdade de pensar, Allan Kardec escreve: “A fé inabalável é somente aquela que pode encarar a razão face a face, em todas as épocas da humanidade; à fé é preciso uma base e esta é a inteligência perfeita do que se deve crer; para crer, não basta ver, é preciso compreender; a fé cega não é mais deste século; ora, é precisamente o dogma da fé cega que produz hoje o maior número de incrédulos, por querer impor-se, exigindo a alienação das mais preciosas faculdades do homem: o raciocínio e o livre arbítrio”.

Ele soube penetrar o designo providencial dos fenômenos espíritas e revelar a lei natural, eterna e imutável, da comunicação com os mortos, lobrigando, nesses fatos, aparentemente sobrenaturais, o sentido novo da vida moral.

Construiu, por isso, a sua doutrina sobre a certeza científica da imortalidade e sobre a possibilidade e a necessidade do intercâmbio entre as duas humanidades, a visível e a invisível, rasgando assim, novos e largos horizontes à humanidade, que nas perspectivas consoladoras da vida futura, cientificamente demonstrada, encontrará, por certo, o estímulo maior para suportar co heroísmo e conformação os rudes golpes e as acerbas dores que se contêm no cálice da vida.

Allan Kardec foi, na verdade, um grande missionário. As obras que o seu gênio produziu não encontram similares em nenhuma filosofia.

Fundando a doutrina espírita sobre os fenômenos e sobre a lógica, ele pôde contentar a todos, a uns dirigindo-se ao coração, a outros à inteligência. Nos seus trabalhos encontramos, sem saber como distinguir, o moralista, o filósofo, o cientista, o artista, o crente fervoroso e sincero que consagrou as suas energias e a sua própria vida à Causa do Cristo, que tanto fizera para exaltar. Ninguém melhor do que ele poderia construir um corpo de doutrinas com bases tão profundas e inabaláveis, uma crença pura e simples, inteligente e clara, que se insinua no coração e na inteligência sem imposição ou violência, encontrando, sempre, nos espíritos bem formados um campo propício à sua germinação e desenvolvimento. A doutrina espírita não tem ainda um século. Todavia, conta, já muitos milhões de adeptos. A que se deve esse surto de progresso? Deve-se, principalmente, ao gênio criador, ao método de trabalho, à clareza e lógica da exposição, ao carinho e dedicação do Mestre que representa, para nós, um modelo perfeito, como obreiro e como crente.

Todo o seu empenho, que ressalta das suas obras e que ele fazia questão de colocar em primeiro plano, consistia em destruir o caráter maravilhoso e de sobrenatural que viessem atribuir ao Espiritismo.

Ao contrário, as explicações que a doutrina oferece sobre as leis naturais e os fatos aparentemente miraculosos, elucidam um número considerável de casos que se repetem em virtude de causas desconhecidas, mas, que se relacionam sempre com as leis naturais.

Assim, a doutrina, longe de acoroçoar o maravilhoso, destrói-o pela base.

Allan Kardec tudo fez para adaptar os conhecimentos espíritas às necessidades intelectuais e aspirações do homem estudioso do nosso século. Sobre o caráter positivista da doutrina, eis o que escreveu: “A ciência é convidada a construir a verdadeira gênese, segundo as leis da natureza. Os descobrimentos da ciência glorificam a Deus, em vez de o rebaixarem e não destroem senão o que os homens edificaram sobre as idéias falsas que fizeram de Deus. O Espiritismo – acrescenta ele – marchando com o progresso, nunca ficará na retaguarda, porque se novos descobrimentos demonstrarem que está em erro sobre um ponto, ele modificar-se-á nesse ponto. Se uma nova verdade surgir, ele a deverá acolher”.

Não se poderia ser mais explícito na demonstração da positividade científica de uma doutrina.

A missão de Kardec foi realmente bem árdua, inçada de sacrifícios.

Depois de ter recebido a mensagem de um espírito elevado, que o assistia e orientava, sobre a natureza e os percalços de sua missão, Kardec formula uma sentida prece a Deus, na qual revela a sua humildade, modéstia e desinteresse. Ei-la: “Senhor! Se vos dignastes lançar os olhos sobre mim, para satisfazer os vossos desígnios, seja feita a vossa vontade! A minha vida está em vossas mãos; disponde de vosso servo. Para tão alto empenho, eu reconheço a minha fraqueza. A minha boa vontade não falhará, mas podem trair-me as forças. Supri a minha insuficiência, dai-me as forças físicas e morais, que me sejam necessárias. Sustentai-me nos momentos difíceis e com o vosso auxílio e o dos vossos celestes mensageiros, esforçar-me-ei por corresponder às vossas vistas”.

Ele confessa, em janeiro de 1867, que passou por todas as vicissitudes, foi alvo do ódio dos inimigos intransigentes, da calúnia, da inveja e do ciúme; libelos indignos foram publicados contra ele; as suas instruções foram deturpadas; foi traído pelos amigos em quem mais confiava e pago com ingratidão por aqueles a quem serviu.

Confessa, ainda, o Mestre que nunca mais teve repouso e muitas vezes vergou ao peso do trabalho; comprometeu a saúde e arriscou a vida. Tudo isso sofreu Kardec, mas sofreu com paciência e resignação como sabem sofrer os espíritos que não se abatem e aos quais a Providência comete missões importantes.

Todas as provas e vicissitudes foram vencidas, com heroísmo e superioridade.

Eis o que ele diz: “A par de tais vicissitudes, porém, que satisfação, por ver a obra progredir prodigiosamente! Que doces compensações tive para as minhas tribulações! Quantas bênçãos, quantos testemunhos de real simpatia recebi dos aflitos, que a doutrina consolou!Queixar-me, seria ingratidão! Se eu dissesse que o bem compensa o mal, não diria a verdade: porque o bem – falo das satisfações morais – sobrepujou o mal, sem comparação possível. Quando me vinha a decepção, uma contrariedade, colocava-me por antecipação, na região dos Espíritos e desse ponto culminante, donde descobria o meu ponto de chegada, as misérias da vida passavam por mim, sem me atingir”.

Allan Kardec viveu, até o seu último dia, todo entregue às preocupações absorventes do seu trabalho.

Investido dessa missão, soube desempenhá-la a contento da sua consciência e de conformidade com os planos providenciais. É a esse espírito elevado, a esse eminente pensador que o mundo espírita, a 3 de outubro, rende sincero preito de homenagem, rogando-lhe que assista aos pequeninos continuadores da sua obra e discípulos seus, para que estes sejam, realmente, como ele foi, obreiros devotados, servindo à Causa de Jesus com entusiasmo e zelo apostólicos.

  Djalma Montenegro de Farias
(Outubro de 1950)


Extraído do livro Obras Completas de Djalma Farias – Volume I