A MISSÃO DE JESUS

            

nunciada há alguns séculos, por vários profetas, a vinda de Jesus, constituindo um acontecimento histórico de importância indiscutível, foi o coroamento natural da obra grandiosa de Moisés, a demarcar uma nova e auspiciosa fase para a humanidade sofredora.

          Com efeito a história do mundo poderia dividir-se em dois grandes períodos: o primeiro, desde os mais remotos tempos até o aparecimento do Cristo, e o segundo, desse acontecimento até os nossos dias, tal foi, na verdade a transformação que se operou na Terra com o advento do Cristianismo.

          A obra social e moral de Jesus, analisada com imparcialidade e independência, revela-se-nos admirável, pelo cunho de perfeição, com que foi realizada, estatuindo regras e princípios suscetíveis de implantar no mundo a felicidade por todos tão desejada.

          Encontrando o povo judeu humilhado e oprimido, a reclamar um libertador, que devia  sair da casa de Abraão e que,  à frente de exércitos pudesse restituí-lo à liberdade, e compreendendo o pensamento dominante no seio da família de Israel, Jesus soube orientar com habilidade, a propaganda de Sua Doutrina, justamente para a liberdade moral, procurando convencer os Seus contemporâneos, com argumentos irrespondíveis, que só a Verdade os faria livres.

          O homem terreno, imperfeito, escravizado pelos vícios, joguete de mil tentações, precisaria conhecer os meios de se redimir dessa detestável escravidão moral, responsável por toda a sorte de infortúnios e dores que o têm cruciado. O passado, sombrio e comprometedor,  proporcionando a expiação do presente, teria de ser resgatado e o tempo perdido, recuperado, devendo ao homem redimir-se, alijando as imperfeições que têm originado as suas dores e longe de se deixar escravizar pelos vícios e paixões inferiores, cumpria-lhe, ao contrário, dominá-los, passando de escravo a senhor. É nesse sentido que se deve compreender a redenção trazida por Jesus ao mundo. E não pode haver mais feliz concepção de liberdade.

          Os ensinos do Cristo estabeleciam também a igualdade e preparavam a fraternidade, expondo a verdadeira situação da humanidade pela explicação clara dos destinos humanos, ninguém pretendendo ser superior ou senhor, pois o senhor, que era Ele, viera não para ser servido, mas para servir, não devendo o amo julgar-se acima do servo. Aboliu assim o preconceito de classes e castas, de família e posição, assertando que quem quisesse ser o maior fosse o menor e quem pretendesse se exaltar se humilhasse. 

          Era evidentemente a condição de igualdade expressa na sua fórmula mais simples e talvez por isso mais impressionante.

          Dessa lição de igualdade decorria naturalmente a prática da fraternidade pelos laços de solidariedade que viessem unir as criaturas como filhos do mesmo e único Pai, que é Deus.

          O aspecto social da Missão de Jesus é sempre novo e interessante, graças ao apelo que faz aos homens para solidarizarem-se na luta pela vida, pela tendência a uma justa fórmula de organização social, em que não tenhamos de ver misérias, opressões e despotismos, em que se possam solucionar a contento as graves questões da autoridade e da ordem, do capital e do trabalho.

          O socialismo pregado por Jesus Cristo encara o problema da vida sem ilusões e privilégios, considera a fortuna e a pobreza como contingências momentâneas de expiação, ninguém se julgando proprietário, porém, depositário de bens, estimula os homens ao exercício constante da caridade, do amor e da justiça, pelos conselhos salutares que oferece, não se devendo fazer aos outros o que se não quereria que os outros lhe fizessem. Seria a melhora da Sociedade pela melhora do indivíduo, cada um compenetrado nos seus deveres morais para com o próximo, na certeza de que o futuro seria pior ou melhor conforme o uso que fizesse de seu livre arbítrio.

          A sociedade humana regulada pelas Leis da moral evangélica seria o Reino dos céus implantado na Terra.

          Quanto mais dessa forma de conduta se afastar, mais o homem sofrerá e acabará por se convencer que só Jesus poderá salvar o mundo e dar-lhe a felicidade tão reclamada.

          Os conselhos e advertências que sempre lhe afluíram aos lábios, as bem-aventuranças celestes definidas com um encanto surpreendente no magnífico Sermão da Montanha, sermão profundamente humano e consolador, pelo lenitivo que oferece aos pobres e aos miseráveis deste mundo, emprestam à Sua missão uma face nova, visando a levantar o ânimo do fraco, do desiludido, do pária social, com a perspectiva da felicidade celeste conquistada a troco da paz, da humildade, da resignação.

          O ensino que sobreleva quantos Ele ministrou aos homens é o do amor ao próximo, fundamento de toda Sua doutrina, o amor que conduzirá à perfeição e de Ele foi a mais eloqüente personificação.

          Não tendo vindo derrogar a Lei Divina, porém cumpri-lA, substituiu o Cristo as prescrições mosaicas de caráter humano por novas e oportunas leis, a violência pela brandura, o material pelo espiritual. A magistral concepção de deus e do mundo, singular e inédita, os ensinamentos a propósito da existência e imortalidade da alma e sua evolução pelos sucessivos renascimentos, o conforto e a resignação que oferecem aos homens, tudo isso tornou a extraordinária Doutrina de Jesus o Farol a iluminar a humanidade em demanda da perfeição. Pela excepcional natureza do seu Espírito puríssimo, tão profundas foram as Suas idéias e tão intensa foi a luz que espargiu, que os homens, deslumbrados, confundiram-nO com Deus de Quem Ele sempre se dissera filho e criatura, com Quem havia aprendido e cujas ordens Ele apenas diligenciava por executar.

          A Missão de Jesus, à luz do Espiritismo, não se circunscreve apenas ao período de 33 anos em que parece ter vivido, mas remonta ao passado e avança infinito afora, sobre o futuro da Terra e da sua humanidade, pois Ele existia antes da criação do planeta, a cuja formação cósmica assistiu, partindo de então a Sua Missão espiritual, na qualidade de guia e Diretor da Terra.

          Sob esse novo ponto de vista o Seu Espírito surge-nos ainda agora como orientador desse formidável movimento espiritualista que sacode o mundo, pela promessa que fizera certa vez de que não nos deixaria abandonados e enviaria em breve o Consolador - O Espiritismo - para relembrar os Seus ensinos e editar que outros que os pósteros pudessem compreender e aceitar.

          De sorte que a Sua extraordinária e Divina Missão não se encerou, mas continua o seu ciclo infinito, porquanto Ele afirmara que estaria conosco até a consumação dos séculos.

          

Djalma Montenegro de Farias

(Novembro/Dezembro de 1949)

 

Extraído do livro Obras Completas de Djalma Farias - Volume I