DIA DOS MORTOS

         

o dia 2 de novembro comemora-se, com as solenidades características, o dia dos mortos, em que muitos costumam expressar o sentimento de saudade dos que transpuseram os umbrais de além túmulo.

As necrópoles silenciosas enchem-se de uma multidão que costuma promover nesse dia uma romaria a esses lugares para rezar pelos seus mortos queridos.

Há, também, inúmeras criaturas que se dirigem àquele local apenas para passear, divertir-se e passar o dia, indiferentes à dor e à saudade alheias, desrespeitando o sentimento dos seus semelhantes.

Muitos, porém, vão ali efetivamente chorar a perda irreparável dos seus entes caros e rezar pelas suas almas.

Trata-se, não há dúvida, de uma sincera e respeitável homenagem que se rende àqueles que aqui viveram, lutaram, sofreram e morreram.

Não se pode desdenhar da piedade e dos sentimentos de dor e de saudade daqueles que aqui ficaram, sentindo o vácuo impreenchível deixado no seu coração pelos que se foram deste mundo.

Todavia, não é possível continuar alimentando, por manifesta ignorância espiritual, a idéia errônea de que os que faleceram são mortos, verdadeiramente mortos e finados, e muito menos supor que é nas necrópoles, onde eles ainda se encontram. É necessário abolir de uma vez para sempre a homenagem fúnebre prestada aos mortos, é preciso compreender que os pretensos mortos estão bem vivos, e cada vez mais vivos.

Urge que os espiritualistas de todas as religiões esforcem-se por abolir definitivamente o culto consagrado à matéria, o culto aos restos mortais dos entes queridos, abandonando essa prática materialista de orar por eles nos cemitérios solitários, como se fossem eles próprios que estivessem sepultados e não os seus corpos já apodrecidos.

Como seria, então, se os corpos fossem incinerados, como sucede em alguns países? Ter-se-ia de chorar e rezar pelas suas almas junto às urnas que encerrassem as cinzas de seus corpos.

Os espiritualistas, seja qual for a sua crença, sabem que a morte não é a destruição do ser, não é o nada, como supõe o materialismo, porém, a transformação que se opera na criatura, o fenômeno físico que provoca o deslocamento definitivo do espírito, cujo corpo se tornou imprestável, para outro plano, o plano espiritual. A morte é a redenção da alma, que se liberta das cadeias que a prendiam ao corpo material. A morte é o regresso do espírito à sua verdadeira pátria, ao seu verdadeiro plano, que é a espiritualidade. A morte é a cessação da vida material do corpo terreno e a continuação da vida espiritual no plano etéreo, invisível, mas, real e positivo, de existência concreta e insofismável.

A morte do corpo é a ressurreição do espírito no plano eterno, é, na expressão de Charles Richet, “a porta da vida”, da verdadeira vida, dizemos nós.

Assim, a morte, no sentido material não existe. Ninguém morre. Todos estão vivos, amando, lutando, sofrendo e progredindo.

Dessarte, se bem que a saudade domine os nossos espíritos, pela ausência material dos nossos entes queridos, não há razão para pensarmos que eles se acabaram, morreram, finaram-se, quando a verdade é que estão mais vivos do que nós, já conseguiram a sua libertação, foram retemperar-se no mundo espiritual para continuarem novos embates, visando sempre à sua felicidade e perfeição espirituais. Podemos e devemos orar por eles em nossos lares, atraí-los pela prece, nesse dia, para junto de nós, rogando a Deus a paz e a luz para suas almas queridas.

Leon Denis diz-nos que, muitas vezes, os seres que choramos e que muitos vão procurar nos cemitérios estão sempre ao nosso lado, ao lado daqueles que o procuram. A morte, diz ele, de que fazem um espantalho, é para o pensador simplesmente um momento de descanso, a transição entre dois atos do destino, dos quais um acaba e o outro se prepara.

A promiscuidade, o alarido dos cemitérios visitados pelos indiferentes, a multidão que aí se comprime, perturbam certamente a serenidade e o recolhimento dos que desejam realmente orar pelos seus mortos.

O lar seria o melhor ambiente para o culto da saudade, instituído piedosamente nesse dia.

Lembremo-nos do espírito, que é imortal, e deixemos o corpo, que é matéria. Não está certo procurar o espírito imortal na matéria que se transforma em pó.

Camilo Castelo Branco, o grande romancista português, escrevera em uma de suas obras: “Eu creio em Deus, como creio na vida. Creio na vida como creio na dor. O que eu não creio é na morte. A morte é uma palavra convencional com que os homens explicam a passagem de sobre a terra para o seio de nova existência”.

 

 Djalma Montenegro de Farias

(Outubro de 1950)

Extraído do Livro "Obras Completas de Djalma Farias, Vol. I"